O corpo

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Foto: ₢ Thaís Marin

Eu queria me amar todos os dias, mas nem todos os dias são fáceis para me amar.

Há dias em que o gatilho do ódio ao corpo vem sem dar pistas de que está chegando e uma foto inofensiva é capaz de destruir um muro que demorei meses para levantar. Por quanto tempo mais vai ser assim? Eu me pergunto com mais frequência do que deveria.

Todos os dias eu sonho com o dia em que eu finalmente olharei para o meu corpo com o mesmo orgulho que eu olho para as minhas conquistas. E ao mesmo tempo, eu me questiono por que isso é tão importante para mim. O problema é que quando me pergunto isso, ao invés de tentar encontrar uma resposta, eu volto ao vício eterno de me torturar pelas negativas que já ouvi por não ter o corpo padrão. Negativas de amor dos outros e do meu amor-próprio também.

Os argumentos de ajuda são sempre os mesmos: “não ligue para o que outros pensam”, “você é linda de qualquer jeito”, “não se apegue ao padrão da mídia manipuladora”, “o que importa é a saúde”.

Você já se disse alguma coisa tantas vezes que ela passa a perder o sentido? É justamente assim que absorvo tudo isso. Sem nenhuma compreensão e apreço pelo que essas palavras estavam determinadas a entregar.

No dia a dia, o buraco é mais fundo e a dor se faz constante. Não se pode comprar um shorts branco para a virada do ano sem algum tipo de sofrimento: “desculpa, só temos até o tamanho 42”. No dia a dia, o termômetro bate 35°C e não posso mais esconder meu braço enorme e minha panturrilha desproporcional. No dia a dia, a culpa aperta porque eu me deixei comer um doce depois do almoço. No dia a dia, não há paz. No dia a dia, vem a raiva. Vem a comparação de organismo com aquela amiga que vive de Coca-Cola, mas tem corpo de revista.

Se eu pudesse ter uma conversa com o meu corpo, queria pedir desculpas por tanto olhar de desapontamento no espelho. Queria dizer que mesmo quando eu me deixo levar pelo gatilho, uma parte minha ainda está batalhando pela nossa aceitação, pela nossa harmonia. Queria agradecer pela saúde desses anos todos e por topar o desafio de dançar comigo em cima de um salto. Isso me faz tão feliz!

Mas mais do que isso, eu queria pedir que o meu corpo fosse capaz de abraçar todas as mulheres que eu conheço e que se cobram de alguma forma. Que querem se modificar todos os dias por causa do olhar do outros. E aqui, por um segundo, eu não queria que as palavras perdessem o sentido de tanto serem repetidas, então vou reforçar: todas as mulheres. Todas as mulheres.

“Me amo, me perdoo, me aceito e me liberto” tem sido meu mantra desde o início do ano. Infelizmente, há dias em que os olhares negativos acabam ganhando força, mas sei que é preciso persistir. Nós, tão maravilhosamente guerreiras e sensíveis, não podemos perpetuar essa falta de amor próprio.

Precisamos ser mais gentis.

Precisamos nos olhar com carinho.

Sobre comida

O texto de hoje  é um desabafo que eu escrevi há algum tempo no meu Facebook e resolvi compartilhar hoje porque não conheço uma mulher que não tenha crises com o próprio corpo. Espero que gostem!

Photo by ₢ Thaís Marin

Photo by ₢ Thaís Marin

Eu queria falar uma pouco sobre dieta. Ou sobre comida. Ou sobre peso. Ou sobrepeso. Ou sobre imagem. Ou sobre se sentir bem. Ou sobre estar bem.

A verdade é que cada uma dessas coisas gera mil outras na minha cabeça. Então vou começar dizendo uma que a maioria das pessoas que me conhecem já sabe: eu sempre tive problemas com o meu corpo. E mesmo depois de ter perdido 23 quilos, eu fico impressionada com o quanto eu ainda não me sinto satisfeita.

Ainda não gosto do que vejo no espelho e isso me tortura todos os dias. É tortura sim, porque independente de escolher a comida “certa” ou a “errada” eu me sinto culpada. E estou sempre pensando em comida. Eu me enlouqueço em pensamentos de culpa! Às vezes eu sinto a culpa de ter comido a coisa gorda, e às vezes eu sinto a culpa de ter comido a coisa magra. Acho que só quem sofreu com isso durante muito tempo deve entender o PESO (de novo… sempre ele!) que essas escolhas tem, o desgosto de engolir um alface quando a vontade mesmo era de ter engolido um hambúrguer. Ou vice-versa. E até pra escrever isso, eu preciso parar e refletir: engolir? era melhor ter mastigado antes, né? Qualquer um dos dois.

Uma das outras coisas que quis dizer aqui é que pra perder os 23 quilos que perdi eu me afundei em um ano de informações de todos os tipos e optei pelas quais eu julgava mais saudáveis, tanto pra mente quanto pro corpo e enquanto fazia (e ainda faço!) isso eu me deparo com um monte de loucuras! Encontrei quem optou por remédios, encontrei quem optou por fazer exercícios em excesso e encontrei até gente que bota a culpa do excesso de peso no salmão e no tomate. E foi aqui que eu freei. A que ponto chegamos? Cortar o tomate?

Eu já aprendi a emagrecer. Eu sei quais são as regras do jogo, mas e se eu estiver um pouco cansada de jogar? E se por enquanto, eu quiser ter alguns quilos a mais do que eu deveria? Tudo bem. Mas ao mesmo tempo isso também não é o que eu queria. Acho que o que eu queria MESMO era parar de desejar o tempo todo que meu corpo fosse outro. E “dieta pra se aceitar” eu ainda não encontrei em nenhum lugar.

Eu aposto que esse meu desabafo não é só meu. Tem muita gente se sentindo amarrada e presa também. E tudo o que eu queria agorinha era saber o por que. Por que é tão difícil ser eu mesma? Por que a grama da minha vizinha é sempre mais verde? Por que eu me sinto avaliada a cada instante?

Botem a culpa na mídia, ou nos padrões de beleza se quiserem. Isso não vai deixar esse meu sentimento, e de muitas outras mulheres, mais fácil de lidar.