Distanciamento social – dia 32

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Estou há 32 dias sem sair daqui. Não vou ao mercado, nem à farmácia. Peço tudo pelo celular. Descer as escadarias do prédio, chegar até a lixeira e voltar para o apartamento é o maior percurso que tenho percorrido. Lavo tudo o que me entregam e também as mãos sempre que encosto em qualquer coisa que já não estava dentro de casa, mas confesso ter pulado alguns banhos…

Quando tudo isso começou, fiquei aflita com essa falta de data para voltar a viver como vivia antes. Agora, justamente enquanto digo essas palavras, me dou conta de que talvez a aflição tenha vindo da intuição de saber que a vida de antes estava morrendo bem ali. Na hora, poucas pessoas perceberam comigo esse luto e, agora, sinto que para elas o luto tem durado um pouco mais.

Meu humor oscila e, enquanto parte de mim tenta aproveitar a nova rotina de ritmo menos estressante, a outra parte volta ao estresse mais antigo de todos: não ter controle. Não ter certezas sobre o futuro. A máxima “levar um dia de cada vez” nunca precisou ser seguida de maneira tão fiel e eu uso, dia após dia, todas as minhas artes para tentar não enlouquecer. Escrever, cantar, dançar.

A rotina segue mais ou menos assim: de manhã a gente se acorda. Se eu desperto primeiro, fico admirando a doçura dela enquanto falo baixinho que está na hora de levantar. Ela se espreguiça bem gostoso e me dá lambidas antes de pular da cama, mas se ela desadormece primeiro, ganho mordidas na orelha e puxadas no cabelo não tão carinhosas assim. Seguimos então para a cozinha e o café da manhã é lento, como sempre deveria ser.

Essa é a primeira parte de amor do meu dia e eu tento me agarrar ali, nas minúcias. Depois me apego em trabalhar, manter a mente ativa e a perceber que também existe amor nas amizades que não mudaram, que choram e riem comigo todos os dias como era antes. É libertador dividir aflições e incertezas, o estômago desrevira. Com a minha família, falo todos os dias e é bom confirmar que essas vozes ainda estão ali e são meu conforto.

Eu não sei como será o dia de amanhã e não quero mais imaginar como serão os próximos meses. Hoje, só hoje, eu preciso me apegar nos detalhes, o amor está neles.

 

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