Ir ao cinema sozinha + 50 tons de cinza

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Quarta-feira de cinzas.

Depois de passar a manhã todinha na estrada entre cochilos e olhadelas para o mato, eu finalmente acordei e pensei: que saudades de ir ao cinema sozinha! Tentei o sinal da Tim para ver a programação, mas sem sucesso (novidade?) pedi o do meu pai que é Vivo e funcionou num instante: consigo pegar a sessão das 18:40!

Joguei o pacote de pipoca fora e saí voando da sala do cinema para não me enroscar na muvuca. O cérebro à mil, e eu tipo zumbi pelo shopping sozinha só pensando porque raios eu não tinha meu caderno e caneta a bolsa? (Sou dessas).

Enquanto estava na fila do táxi com umas gotinhas de chuva ameaçando me molhar, tudo o que eu conseguia pensar era: interessante estar chovendo agora, porque no filme também estava chovendo… é quase como se eu ainda não tivesse saído dele… o táxi chegou! Fala logo o endereço e abre o bloco de notas do celular, Mayara!
(Eu juro que é assim que minha mente funciona, eu falando comigo e me dando ordens…e o que está abaixo foi mais ou menos o que saiu, porque #soueditora dei uma editada).

Eu gosto de ir ao cinema sozinha.  Esse me parece o melhor jeito de absorver toda a informação. A de fora e a de dentro, ou seja: é um misto de perceber a história, a fotografia, a evolução dos personagens e os meu sentimentos sobre o enredo, como está sendo mostrado e o que EU estou sentindo em relação a tudo isso.

Quando vejo um filme sozinha, mas principalmente no cinema, é como se eu realmente entrasse em contato comigo. E eu adoro essa sensação de me entender, é tão aliviante! É quando eu me sinto livre e espontânea, quando percebo as minhas primeiras reações, sem o preconceito e intervenções do que o resto do mundo já expôs. Aquela coisa da primeiridade (das aulas de semiótica!) da sinceridade que a gente espera de um amor à primeira vista, que eu só vi nos filmes e só senti nos livros. E isso nada tem a ver com o Mr. Grey e a Anastasia Steele… estava só sendo louca aqui e descrevendo a sensação.

Me enrolei nisso tudo pra dizer que o filme é muito bom! E isso pra quem tinha lido o livro e achado marromenos. A evolução dos personagens é mais natural, a coisa toda parece menos doentia e a direção e produção toda está de parabéns por manter as cenas mais quentes muito bem editadas e com bom gosto!

Não vim aqui discutir a sexualidade reprimida das mulheres, nem as fantasias de cada um, nem a violência doméstica porque cada um pode torcer e distorcer o tema desse livro para o que bem entender.

Vim só dizer que se você não gostou do livro, pode dar uma chance ao filme sem sofrimento. Mas claro, se esse tipo de ficção não é pra você, é só procurar outra “fita” (como diria minha vó) e experimentar uma sessão de cinema sozinha. 🙂

Primeiros livros de 2015

Por trabalhar com livros, muita gente imagina que nós editores somos uma máquina de leitura e que, praticamente, absorvemos os conteúdos de todos os livros por osmose num simples passeio a livraria! Acreditem, todos nós da cadeia de livros queríamos mesmo ter esse superpoder, mas infelizmente ainda não é realidade. 😦

Para mim, na verdade, é justamente o contrário. Infelizmente, me sobra pouco tempo para ler tudo o que eu gostaria e a pilha ao lado da cama só vai aumentando. Mas não vim falar da minha vida corrida e da falta de tempo, vim falar um pouquinho dos primeiros livros que li em 2015!

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Por ordem de aparência: O livro do corpo, Cameron Diaz; Morreste-me, José Luís Peixoto e Manual prático de bons modos em livrarias, Lilian Dorea (ou Hillé Puonto).

Eu tinha planejado escrever sobre O livro do corpo por último, porque foi o livro que mais me “fisgou” dentre os três, mas a pessoa aqui tem um pouco de TOC e ia ter insônia com essa descontinuação. Não é segredo para ninguém que eu sempre tive (e ainda tenho!) problemas com o meu corpo, com a minha auto estima e com a forma como eu me vejo (vide desabafo aqui).  É engraçado, porque até mesmo agora, quando parei para reler meu desabafo, vejo que o pensamento ainda é muito parecido, apesar de o tempo ter passado.

Lembro de ter  tido um pouco de preconceito quando ouvi falar que a Cameron Diaz tinha escrito “um livro do corpo”. Pensei “claro, olha só pra ela: linda e magra a vida toda. Assim é fácil.”  E ela começa o livro justamente dando um tapa na cara de quem pensa assim. 🙂 É verdade, ela sempre foi magra! Mas não se alimentava bem, estava sempre sempre indisposta e com a pele ruim. Sentia tonturas, fraquezas, e também era muito criticada, mas por ser “magra demais”.

O livro é dividido em três partes: Nutrição, Fitness e Mente e com a ajuda de especialistas ela conta direitinho como mudou os hábitos alimentares e melhorou a saúde. Se você estiver procurando um livro de receitas light e dietas milagrosas para perder peso rapidamente, esse NÃO é o livro que você procura!

Tudo é narrado em primeira pessoa, e a sensação é de estar batendo um papo mesmo com ela para aprender a amar e nutrir o corpo da melhor forma possível! Eu não vou dizer que por ter lido o livro já estou magra, linda e satisfeita, mas confesso que me ajudou MUITO a perceber como  meu corpo reage a certos alimentos. Minha relação com a comida tem sim sido bem diferente depois do livro, vejo tudo com outros olhos. Recomendo! 🙂

Desde que conheci a Vitória, sempre  a escuto falar sobre o José Luís Peixoto  e o quanto ela é apaixonada pela forma como ele escreve. Não é para menos, peguei o Morreste-me emprestado e devorei no mesmo dia. Mas já aviso, leiam em algum lugar onde possam chorar descontroladamente e dar pausas a cada cinco minutos para uma boa suspirada. Apesar de ser curtinho, o livro é quase um diário de tão sinceros que são os sentimentos postos ali. Foi escrito depois que o autor perdeu o pai e nas páginas estão as memórias mais lindas e doloridas… como, por exemplo, quando ele encontra entre algumas coisas um cartão que ele mesmo tinha feito e dado de presente para o pai quando era criança… é de partir o coração, mas com as palavras mais delicadas e lindas!

Completamente oposto ao sofrimento do livro anterior é o Manual prático de bons modos em livrarias que surgiu à partir do blog da Lilian Dorea. A autora trabalhou em livraria por cinco anos e, como ela mesma diz no blog, “enlouqueceu na maior parte do tempo”. O livro é uma coletânea de ~causos~ e atrocidades que você nunca imaginaria que acontecem em livrarias! Perguntas como “Oi, vocês vendem livros aqui?” ou “Tem o livro novo do Shoyu? (aka Osho…)” é só o começo do tipo de loucura que esses lindos desses livreiros passam e que ela descreve com uma dose (muito boa!) de ironia e bom humor. Também li em dois dias e dei MUITA risada!

Doce Crise em Lisboa

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A notícia surpresa chegou: minhas crises estarão em Lisboa durante esse mês!

Como vocês sabem, comecei o blog depois de sair do meu emprego e depois de ter ficado sem férias por quatro anos. Tirei um mês para mim, fui para Nova York, Richmond e Washington e, agora, como a vida é boa, ela me trouxe para Lisboa a trabalho!

Mas como nem tudo é um mar de rosas e este é um blog sobre crises, vamos a elas! Tudo começou com um chororô danado de pré-saudade do meu namorado e da minha família e um lindo atraso de cinco horas do voo. Eu disse CINCO. E isso nunca tinha me acontecido antes. Pela primeira vez na vida, eu precisei transportar medicamentos em um avião e os danados precisavam ser conservados em geladeira. O que aconteceu? Mesmo com o frio de São Paulo, mesmo com uma porção de gelos dentro do isopor, mesmo comigo falando sobre eles o tempo todo, mesmo conseguindo um espacinho na geladeira do avião… Quando finalmente fui abrir a embalagem: metade da quantidade estava estragada e foi para o lixo.

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Mas, chegando a Lisboa, nosso hotel (meu e da menina que veio comigo (calma que eu já explico tudo)), era lindo e confortável. Todo preto (não tô brincando, gente, até o banheiro era preto), mas lindo e confortável. O problema é que eu não sou muito boa de sono em aviões e fuso-horários. Dormi super cedo, acordei no meio da noite, não durmi mais e fui para o meu primeiro dia de trabalho na editora um CACO. Estilo zumbi.

Mas então, o que é que eu vim fazer aqui? Para quem não sabe: eu faço livros. Sou editora e desde 2009 trabalho no mercado editorial do Brasil. Vim para cá para fazer um treinamento em uma editora portuguesa que abrirá a filial no Brasil ainda este ano. Eu e a Vitoria, que é dona do blog A Vi Viu, estamos aqui em Lisboa aprendendo a viver esta nova vida por um mês enquanto trabalhamos com o que é uma paixão para nós duas: livros.

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Para ser sincera, o que nos tem deixado mais apaixonadas nesses dias é nosso apartamento e as vistas lindas que temos ao redor… A paisagem que vemos do nosso banheiro é um privilégio e transmite uma calmaria tão grande que qualquer crise vai embora.

(Podem ficar babando com a nossa “morada”. Não é liiiinda? A última foto é a da vista do banheiro.)

E é assim que eu sempre tento levar meus dias. Vivo de fúrias e doçuras e acho que essa é a melhor forma de viver a vida, aproveitando todos os momentos, mesmos os ruins, para poder perceber com toda a sensibilidade a beleza das coisas boas.