Quarentena

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É estranho como, subitamente, os problemas pessoais ficaram pequenos diante de um problema que atinge o mundo. O que é meu sobrepeso perto das aflições de fechamentos de fronteira? O que são as decepções amorosas perto de quem não consegue voltar para casa?

Essa falta de data para se saber o desfecho das coisas, essa quebra de rotina que, por força maior, nos faz cancelar compromissos, rotinas e ficar em casa, tem me feito questionar toda a correria dos dias. Por que tanta pressa?

Da noite para o dia, de repente, fomos todos obrigados a cuidar. Cuidar de nós mesmos e dos outros. Seja ficando em quarentena, seja lavando as mãos, seja repensando a alimentação e suplementação para intensificar a imunidade, seja aproveitando todas as artes com mais tempo.

Eu me recuso a deixar que os pensamentos fiquem presos só na parte negativa desse cenário que mais parece um episódio de uma série apocalíptica. Sabe aquele ditado: “depois da tempestade, sempre vem o Sol”? É triste que tenhamos que passar por uma epidemia para compreender que somos frágeis, sensíveis e humanos, mas é a primeira vez que vejo tantos chefes de estado repensando as ações para um bem comum. Quem ainda não repensou os próprios hábitos, não percebeu o chamado do universo para darmos uma pausa.

Se cuidem e aproveitem o tempo ocioso para apreciar a arte: ela aproxima as pessoas e povos. Usem a imaginação para sair de casa sem sair do lugar. Os livros, os filmes, e as músicas serão grandes companheiros agora.

 

Um suspiro

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Será que podemos aceitar que há dias em que não temos forças? Será que podemos assumir, enquanto sociedade, que vez ou outra todos temos taquicardia, falta de ar e uma palpitação no peito? Será que podemos parar de querer mostrar nas redes sociais só as alegrias? Será que podemos abraçar as nossas próprias dores e normalizar para o mundo os momentos ou dias ruins?

Eu não quero mais sentir essa constante necessidade de expulsar a tristeza e a melancolia que às vezes me visitam. Ficar pensando em novos meios de tirar elas de mim tem sido bastante exaustivo. Eu não quero precisar sentir vergonha para pedir ajuda e eu não quero mais dar conta de mim mesma sozinha. Eu quero me sentir acolhida. Salva.

Faz algum tempo que eu me sinto completamente perdida, como se eu não me conhecesse mais, como se eu não soubesse mais do que eu gosto, como se eu não soubesse mais o que me acalma, como se eu não soubesse mais o que me emociona.

Eu tenho me sentido excepcionalmente cansada, excepcionalmente desconhecida para mim mesma, excepcionalmente sem metas. Logo eu, que sempre fui o exato oposto disso tudo. Eu não sei mais se gosto da minha escrita e da forma que ela tem tomado, mas deixo vir porque me alivia. Eu não sei mais se gosto da minha voz e do que eu gosto de cantar. Do meu corpo eu continuo não gostando e eu, às vezes, não sinto mais vontade nenhuma de tentar mudar esse cenário.

Todo mundo ao meu redor anda triste. Todo mundo ao meu redor anda cansado. Todo mundo ao meu redor anda perdido, ansioso, angustiado. O mundo não é meu, mas às vezes eu queria que fosse para mudar o foco dessa tempestade negativa que já está aqui há mais tempo do que deveria.

Quando é que eu vou suspirar de alívio de novo?

Não preciso de ninguém

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Eu costumava gostar de ficar sozinha para me entender e entrar em contato comigo mesma. Sentir tudo com intensidade. Eu costumava me gabar de ser independente também. Um orgulho de peito cheio: eu não preciso de ninguém. Não gosto de contar com os outros. Tenho um receio enorme de que me joguem verdades de volta como se eu estivesse em dívida com alguém.

Cada tijolo desse muro enorme que eu levantei nos últimos quinze anos, tem desmoronado aos poucos e ao invés de me desesperar com a bagunça, estou assistindo de mãos dadas com a minha família; com as minhas amigas. Eu não quero reconstruir essa barreira, mas agora preciso aprender a confiar e talvez essa seja uma das lições mais confusas que já tive que aprender.

Por que a gente tem tanto medo de se entregar? De mergulhar na verdade dos outros de vez em quando? Uma das coisas mais preciosas dessa vida são as relações interpessoais e eu gosto tanto de admirar as pessoas que me cercam, de descobrir que mesmo com todas as diferenças nós temos sempre algo em comum!

Esse exercício de escolher e aceitar quem vai estar ao meu lado talvez seja o mais complicado de todos, principalmente quando a gente já se machucou no passado e quer se precaver de novos sofrimentos. Mas aí paro para pensar que a vida é, justamente, feita de fases e que algumas temporadas serão de dor enquanto outras serão de alegrias que transbordam o peito. É preciso alguma presença de espírito e muitos exercícios de respiração para não enlouquecer, mas principalmente para continuar encontrando beleza em estar vivo.

Dessa vez, eu estou escolhendo compartilhar os dias. Não vou mais apreciar a vista sozinha.

A culpa

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Foto: Thaís Marin

Hoje de manhã recebi uma mensagem de uma amiga que estava se sentindo culpada por ter terminado o namoro e estar bem enquanto o ex ainda está sofrendo. Ela não é a primeira mulher que ouço dizer isso e, provavelmente, não será a última. Eu mesma também já estive nesse lugar e, recentemente, me peguei mais preocupada com os sentimentos alheios do que com os meus próprios, mesmo em se tratando de uma pessoa que me magoou profundamente.
Por que nos sentimos assim? Eu tenho a sensação de que nós mulheres nos sentimos culpadas o tempo todo. É como se a responsabilidade do bem-estar do mundo fosse única e exclusivamente nossa. A culpa está presente quando eu resolvo comer uma salada, quando o que eu queria mesmo era um hambúrguer, mas a culpa também está presente se eu resolvo escolher o hambúrguer e não a salada. A culpa está presente se eu trabalhei até tarde e não tive energia para cozinhar à noite, e a culpa está presente se eu resolvi sair mais cedo do trabalho porque precisava limpar a casa. A culpa hoje está presente por não ter conseguido chegar no trabalho por causa da chuva.
A culpa está presente nas minhas amigas em todos os relatos. Elas se sentem fora do peso constantemente: gordas ou magras demais. A culpa está presente para além da imagem do corpo também, nós sentimos constantemente uma necessidade de equilibrar ambientes hostis, de cuidar dos outros e de tentar agradar. Mulher tem que ser bonita, tem que ser inteligente, mas não pode falar demais, não pode ser inteligente demais, não pode ser quieta demais, não pode gritar, não pode reclamar, não pode ser mais bem-sucedida que o parceiro, precisa saber cozinhar, precisa querer ter filhos, mas não pode ser “só dona de casa”.
Entre outras mil coisas, a gente é ensinada desde pequena que precisa dar conta de absolutamente tudo e que isso faz de nós grandes guerreiras. Romantizam a exaustão. Para além de tudo isso, nós estamos sempre mais dispostas a falar sobre sentimentos, a refletir sobre nossas próprias dores e amores, a olhar para dentro, a nos questionar e a tentar compreender o outro. Porque a gente sempre se coloca no lugar do outro.
Eu tenho a impressão de que essa habilidade de ser a gente e também o outro (quase que ao mesmo tempo) é justamente o que traz a sensação de ter o mundo nos ombros. E esse peso constante dói. Cansa. Nós precisamos aprender que ser apenas nós mesmas já é trabalho demais. Não que o exercício de empatia precise ser deixado de lado, mas sinto que deveríamos transformar todo esse cuidado com o outro em compaixão por nós mesmas. Em amor-próprio. Em auto-cuidado.
A maioria das mulheres ao meu redor são sempre admiráveis e me esforço para dizer isso para elas sempre que posso, porque eu sei que com a correria do dia-a-dia a gente tende a esquecer as próprias qualidades, mas hoje eu só queria dizer que é perfeitamente normal não dar conta. Que é perfeitamente normal precisar de ajuda, e que o bem-estar do mundo e os sentimentos dos homens não são nossa responsabilidade.

O tempo

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Há dias em que sinto que o tempo passa mais devagar. Não é por falta de compromissos, nem por excesso deles, parece apenas que o relógio resolveu respirar mais fundo antes de seguir com o próximo passo do ponteiro.

Nesses dias, às vezes sinto que eu não estou no meu corpo, mas sim do meu próprio lado só acompanhando a vida como se fosse um personagem secundário que gosta de analisar os fatos e apreciar a vista. Sigo então um pouco desligada e, assim como o ponteiro,  sinto como se eu mesma também precisasse respirar fundo antes de dar o próximo passo.

Em dias assim poucas coisas me tiram do sério, e olha que eu sou uma pessoa facilmente irritável. Em dias assim, poucas coisas me comovem ou me emocionam. Deve ser algum tipo de anestesia temporária que aplico em mim mesma sem me dar conta. Talvez seja parte do processo de cura, ou parte do processo de buscar novas vontades e desejos.

Tento me convencer de que esses dias são, na verdade, parte de um período de transição e que preciso me redescobrir. A vida como estava já não pode ser a mesma e eu preciso encontrar novas paixões para seguir em frente com a alegria e energia que costumam estar comigo, mas que optaram por tirar folga hoje.

Talvez, esse processo de retornar para o próprio corpo seja exatamente o que retarda o tempo.

Mudança de perspectiva

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Às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma mudança de perspectiva. Há dias ruins em que sinto como se eu estivesse o tempo inteiro com um filtro de negatividade me cercando e, por mais que me esforce, vejo tudo sem saturação. Opaco. Sem vida.

Por sorte, há sempre outros dias para que eu possa me apegar em algum detalhe que me traga de volta para a vida mais colorida. Há dois anos, quando resolvi comprar meu apartamento, eu imaginava muitas coisas sobre a minha casa dos sonhos. E claro que nem tudo o que eu sonhava em ter naquele momento era o que eu, de fato, tinha condições para pagar, mas como morava com os meus pais e não tinha muita pressa em sair de casa, resolvi que só compraria o apartamento quando eu sentisse aquele friozinho de certeza na barriga.

Tudo aconteceu tão mais rápido do que eu imaginava! Foi de verdade amor à primeira vista: a cozinha aberta, as varandas, a proximidade do metrô, a proximidade da casa dos meus pais, o preço (claro!) e o verde! Como eu amo ter essa vista quando acordo de manhã! Tenho sempre a sensação de que estou de férias em algum lugar mesmo que por alguns breves minutos até lembrar de todas as atividades que eu sempre tenho programadas para o dia.

A vida não tem sido muito fácil nos últimos meses e eu tenho precisado me reinventar quase todos os dias. Remodelar atitudes, repensar ações, rever finanças e reprogramar sonhos. Viver sozinha é ter sempre muitas preocupações, mas às vezes gosto de olhar para toda a minha trajetória e me sinto orgulhosa por ter conquistado praticamente todos os meus sonhos até aqui.

Eu sempre senti demais e percebi demais. Meus sentimentos são quase sempre intensos, mas acho que isso faz parte de tudo o que eu preciso ser para ser tudo o que eu quero ser.

Nova fase

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Eu não lembro quando foi, mas um dia eu acordei e vi a vida de outro jeito. Eu me apaixonei por ela, me apaixonei pelas oportunidades que cada dia pode trazer, aprendi a aceitar cada emoção que meu corpo me pedia para viver e percebi que esse relacionamento eu-vida vida-eu é um dos poucos que vai durar até o fim dos meus dias. É por isso que eu sempre converso comigo mesma e sempre tento resolver minhas crises.

Hoje, enquanto eu estava dirigindo nesse frio e nessa chuvinha chata de São Paulo, Epitáfio dos Titãs começou a tocar na rádio, numa versão acústica deliciosa (e eu adoro acústicos!). A música é antiga, mas sempre que eu ouço eu percebo que não quero sair do mundo sem sentir toda a magia que ele tem.

“Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer”

Quero uma vida dessas que eu leio nos livros, que eu vejo nos filmes. Quero dar o melhor de mim em tudo o que eu puder porque foi assim que as minhas heroínas fizeram as histórias delas. Eu quero uma, ou duas, ou até três páginas cheias de detalhes de cada dia que eu vivi. Acho que essa é uma das razões pelas quais eu sempre amei ler e escrever.

A partir de sábado, uma nova fase vai começar para mim. Uma fase daquelas que mudam tudo, mudam o jeito de ver o mundo e a forma como a gente lida com as coisas. Sabe quando o que a gente está para viver é uma coisa tão boa que dá medo de falar em voz alta? Parece que, se eu disser, a realidade virá correndo com um balde de água fria. Só que eu não vou deixar! 🙂

Por enquanto, eu digo para vocês que envolve livros e um destino novo e logo, logo vocês vão saber!