Eu não sei

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Foto: Thaís Marin

Hoje é a primeira vez nesse ano que estou com dificuldades para escrever, mas a minha proposta para mim mesma era encarar isso como um desafio e uma prática de escrita, então estou aqui sentada olhando para as teclas do computador há alguns minutos.

Não é que eu não tenha o que dizer, mas o que quer ser dito hoje não pode ser exposto. Eu não sou uma pessoa de muitos segredos, mas às vezes preciso me poupar. Então sobre o que escrever quando não se pode escrever sobre o que se quer escrever?

Pensei em algumas formas de falar sobre o assunto usando metáforas e subtextos, mas não sinto que esse seja o caminho certo. Parei algumas vezes para mexer no celular e procurar outras inspirações, mas só encontrei gatilhos.

Hoje na hora do almoço, estava assistindo a um curto documentário sobre a memória e a meditação. Era um estudo bem interessante sobre como essas duas coisas reagem no cérebro. O que mais me chamou a atenção é como as memórias de tudo o que já vivemos são exatamente a base para que consigamos imaginar o futuro. É como se pegássemos diversas imagens e tentássemos recolocá-las em outra ordem, combinar de outros jeitos, para contar uma nova história.

Será por isso que às vezes sentimos que estamos andando em círculos e ficamos sem conseguir projetar novos cenários? Será por isso que às vezes eu sinto que preciso fechar alguns ciclos e começar do zero? Com imagens novas? Personagens diferentes?

Eu não sei… Tem dias que a minha vontade é não fazer muitos esforços e só admirar a vista enquanto o cérebro fica brincando com esse quebra-cabeça de quem eu era e de quem eu serei.

Estar vivo é não saber como nos sentiremos no dia seguinte.

A mente

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A mente é bastante incontrolável e gosta de pregar algumas peças na gente. Eu adoro o filme “Divertidamente” e todos os conceitos escondidos de forma sutil por trás dele. Aliás, se alguém souber de algum estudo sobre isso, me avise que tenho muita curiosidade em ler. Adoro, particularmente, aquela cena em que as músicas que não saem da cabeça são jogadas na sala de controle para distrair ou espairecer.

Entretanto, ultimamente o que tem pulado na minha sala de controle são memórias que eu não estou muito afim de reviver com saudade por enquanto. Fico me perguntando, afinal, para que me estão jogando essas imagens agora e sempre fora de contexto? Eu já organizei isso antes, pessoal! Não precisam encostar aí, tá? Ou preciso?

Faço terapia semanalmente e acho bastante curioso como às vezes estou me sentindo ótima e, de repente, sem qualquer sinal de aviso, abro uma porta inesperada e instantaneamente já não tenho tantas certezas como tinha poucos minutos antes.

Quantas coisas estão guardadas dentro de nós mesmos e que não acessamos? Se eu tentasse fazer um breve resumo anual de toda a minha vida desde que nasci, será que conseguiria mesmo recapitular tudo? Tem tanta coisa que a gente só vive dentro da própria cabeça e que não está em foto ou em alguma memória compartilhada com os amigos. Mesmo eu, que tenho o hábito de escrever e guardar meus sentimentos sempre que posso, sinto que tanta informação fica espalhada dentro de mim. Sinto que tanto está perdido aqui dentro! Bom seria mesmo que todas as memórias fossem bolinhas de vidro que só precisam ser organizadas em estantes. Bom seria mesmo que de tempos em tempos elas fossem jogadas num abismo para abrir mais espaço para as memórias novas. Mas e aquelas cinzas todas das memórias que já foram queimadas? Eu sinto que essa poeira permanece e deixa sempre um rastro de nostalgia sobre absolutamente todo o nosso ser.

Talvez essa poeira seja justamente a nossa essência. Fragmentos tão pequenos de memórias e sentimentos que já foram remoídos, digeridos, triturados, queimados. E talvez não. Talvez a sala de controle só esteja tentando colocar a casa em ordem e precisa de respostas sobre as memórias que ainda não foram catalogadas: devem virar poeira ou precisam de mais um tempinho na estante?