A culpa

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Foto: Thaís Marin

Hoje de manhã recebi uma mensagem de uma amiga que estava se sentindo culpada por ter terminado o namoro e estar bem enquanto o ex ainda está sofrendo. Ela não é a primeira mulher que ouço dizer isso e, provavelmente, não será a última. Eu mesma também já estive nesse lugar e, recentemente, me peguei mais preocupada com os sentimentos alheios do que com os meus próprios, mesmo em se tratando de uma pessoa que me magoou profundamente.
Por que nos sentimos assim? Eu tenho a sensação de que nós mulheres nos sentimos culpadas o tempo todo. É como se a responsabilidade do bem-estar do mundo fosse única e exclusivamente nossa. A culpa está presente quando eu resolvo comer uma salada, quando o que eu queria mesmo era um hambúrguer, mas a culpa também está presente se eu resolvo escolher o hambúrguer e não a salada. A culpa está presente se eu trabalhei até tarde e não tive energia para cozinhar à noite, e a culpa está presente se eu resolvi sair mais cedo do trabalho porque precisava limpar a casa. A culpa hoje está presente por não ter conseguido chegar no trabalho por causa da chuva.
A culpa está presente nas minhas amigas em todos os relatos. Elas se sentem fora do peso constantemente: gordas ou magras demais. A culpa está presente para além da imagem do corpo também, nós sentimos constantemente uma necessidade de equilibrar ambientes hostis, de cuidar dos outros e de tentar agradar. Mulher tem que ser bonita, tem que ser inteligente, mas não pode falar demais, não pode ser inteligente demais, não pode ser quieta demais, não pode gritar, não pode reclamar, não pode ser mais bem-sucedida que o parceiro, precisa saber cozinhar, precisa querer ter filhos, mas não pode ser “só dona de casa”.
Entre outras mil coisas, a gente é ensinada desde pequena que precisa dar conta de absolutamente tudo e que isso faz de nós grandes guerreiras. Romantizam a exaustão. Para além de tudo isso, nós estamos sempre mais dispostas a falar sobre sentimentos, a refletir sobre nossas próprias dores e amores, a olhar para dentro, a nos questionar e a tentar compreender o outro. Porque a gente sempre se coloca no lugar do outro.
Eu tenho a impressão de que essa habilidade de ser a gente e também o outro (quase que ao mesmo tempo) é justamente o que traz a sensação de ter o mundo nos ombros. E esse peso constante dói. Cansa. Nós precisamos aprender que ser apenas nós mesmas já é trabalho demais. Não que o exercício de empatia precise ser deixado de lado, mas sinto que deveríamos transformar todo esse cuidado com o outro em compaixão por nós mesmas. Em amor-próprio. Em auto-cuidado.
A maioria das mulheres ao meu redor são sempre admiráveis e me esforço para dizer isso para elas sempre que posso, porque eu sei que com a correria do dia-a-dia a gente tende a esquecer as próprias qualidades, mas hoje eu só queria dizer que é perfeitamente normal não dar conta. Que é perfeitamente normal precisar de ajuda, e que o bem-estar do mundo e os sentimentos dos homens não são nossa responsabilidade.

O tempo

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Há dias em que sinto que o tempo passa mais devagar. Não é por falta de compromissos, nem por excesso deles, parece apenas que o relógio resolveu respirar mais fundo antes de seguir com o próximo passo do ponteiro.

Nesses dias, às vezes sinto que eu não estou no meu corpo, mas sim do meu próprio lado só acompanhando a vida como se fosse um personagem secundário que gosta de analisar os fatos e apreciar a vista. Sigo então um pouco desligada e, assim como o ponteiro,  sinto como se eu mesma também precisasse respirar fundo antes de dar o próximo passo.

Em dias assim poucas coisas me tiram do sério, e olha que eu sou uma pessoa facilmente irritável. Em dias assim, poucas coisas me comovem ou me emocionam. Deve ser algum tipo de anestesia temporária que aplico em mim mesma sem me dar conta. Talvez seja parte do processo de cura, ou parte do processo de buscar novas vontades e desejos.

Tento me convencer de que esses dias são, na verdade, parte de um período de transição e que preciso me redescobrir. A vida como estava já não pode ser a mesma e eu preciso encontrar novas paixões para seguir em frente com a alegria e energia que costumam estar comigo, mas que optaram por tirar folga hoje.

Talvez, esse processo de retornar para o próprio corpo seja exatamente o que retarda o tempo.

A gorda

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Um dos meus objetivos quando voltei com o blog era fazer mais resenhas de livros. Além de poder falar sobre um dos meus assuntos favoritos, encontrei também uma forma de me manter regrada nas minhas leituras. O plano inicial era ler um livro por semana, mas o livro que estou lendo agora tem uma linguagem um pouco mais antiga e a leitura acaba sendo um pouco mais lenta. É normal e sei que a velocidade de leitura varia de livro para livro, mas enquanto essa resenha ainda não pode ser escrita, resolvi falar de alguns outros títulos que li recentemente e que mexeram comigo.

Comprei o livro A gorda da autora Isabela Figueiredo na última Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Essa capa e título já tinham me chamado a atenção em alguns outros momentos, mas só dessa vez me convenci a comprar.

Uma das coisas que mais me atraiu no livro, foi um parágrafo da orelha: “Maria Luísa, a protagonista deste romance tão engraçado quanto cruel,  é uma moça inteligente, boa aluna, voluntariosa e dona de uma forte personalidade. Porém, ela é gorda. E inapelavelmente gorda. Essa característica física a incomoda de tal maneira que parece colocar todo o resto em xeque: sua relação com o mundo, sua vida sentimental (a relação complicada com David, seu primeiro amor) e sua atitude diante dos fatos.”

Eu já contei aqui no blog um pouco dos meus problemas de aceitação com o meu próprio corpo e quando bati os olhos nessa frase pensei que ia mergulhar num texto incrível e com milhões de referências em que eu me sentiria abraçada por ter encontrado semelhanças de angústias que vivo constantemente! E não foi bem por aí…

Infelizmente, não consegui me identificar tanto com a personagem quando eu gostaria. Sim, ela é gorda, sim, ela sofre preconceitos e pressões da família e amigos em relação a isso, mas não senti que esse era, de verdade, o problema principal que bloqueava a vida da Maria Luísa. Na verdade, senti durante toda a leitura, que o que empatava realmente a vida dela era um amor mal resolvido. Por levar um título tão forte como “A gorda”, eu esperava ter encontrado mais reflexões pessoais da personagem em relação as inseguranças com o próprio corpo e como isso, de fato, afetava a visão de mundo dela.

Independente das expectativas que eu criei,  a autora tem uma capacidade de escrita bastante impressionante e consegue contar toda a história e pensamentos da personagem em fragmentos não-lineares. Ela flutua na linha cronológica de uma forma muito segura, sem medo de ir e voltar quantas vezes achar necessário e não é todo dia que me deparo com textos tão bem desenvolvidos assim.

É um livro que definitivamente vale a leitura, principalmente pela narrativa! Além disso, a edição da Todavia também está impecável: diagramação gostosa e confortável, e um papel que eu amo de paixão e que deixa o livro bem levinho para quem também gosta de ler no metrô.

Pontes

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Esse é o terceiro texto que começo essa noite.

O primeiro era íntimo demais e senti que não era o momento de expor o assunto. O segundo era um devaneio sobre o presente ser uma mentira e nós só vivermos realmente o passado e o futuro. Nenhum dois dois estava bom como eu queria. Fechei o computador, guardei tudo e decidi que segunda-feira não teria texto no blog simplesmente porque não me senti capaz de escrever.

Rolei na cama por quinze minutos, e enquanto mexia no celular vi algumas citações aleatórias de textos que mexeram comigo e lá fui eu buscar o computador e começar tudo de novo. Tentei pensar em todas as coisas que eu estava planejando fazer no começo do ano e que precisaram ser adiadas porque eu fiquei doente. Será que é o meu corpo me dizendo para mudar de planos? Ou será que e só o meu corpo dizendo que eu ainda não me curei de outras coisas para viver as próximas que quero viver?

De alguma forma, acho que os dois textos que escrevi antes estarão misturados aqui porque eu queria mesmo era falar sobre o processo de cura. Talvez eu tenha uma ferida que não está tão cicatrizada quanto achei que estivesse. E tudo bem. Às vezes está tudo bem não estar tudo bem. Eu preciso me respeitar.

Algumas conexões são mais profundas do que conseguimos enxergar e criam ligações e caminhos muito enraizados dentro de nós, quase como pontes.

“Ponte: Qualquer tipo de estrutura que estabelece a ligação entre duas partes similares.”

Li essa frase no dicionário e fiquei pensando “Se as partes não forem similares a ponte perde o princípio? Ou ela parte no meio tal qual a corrente de uma bicicleta?”. Eu já vi muitas pontes que não ligavam partes similares, mas todas elas levavam de um lado ao outro para que as duas partes pudessem estar sempre conectadas.

Talvez a nossa ponte não fosse tão firme, e talvez eu soubesse disso desde o início, mas insisti em correr nela de um lado para o outro, muitas vezes e intensamente. Eu gostava dela, mas resolvi pular. E agora é muito estranho me sentir livre e ao mesmo tempo vazia. Como se faltasse uma parte que me preenchia, mas de uma maneira pesada.

Algumas pessoas dizem que o ideal seria que aprendêssemos a viver o presente, mas eu confesso que não sei se sou capaz. Minha imaginação é muito fértil e quando dou por mim já não estou aqui. Ou fui dar uma espiada no passado para, mentalmente, reinterpretar cenas em que o desfecho teria sido diferente, ou estou fantasiando sobre as possibilidades do futuro. Às vezes também vou para o passado só para sentir saudades.

Viver inteiramente do presente, seria ser capaz de viver o que exatamente? O presente não existe. Assim que pensamos nele, um segundo se passou e já estamos no futuro ou no próximo passado, não? Eu gosto de poder estar em outros lugares que não aqui e agora. Gosto de revisitar memórias que significaram tanto e fazem parte de mim. Também gosto de idealizar novos momentos que serão concretizados no futuro.

O que eu não gosto é de descobrir que na cidade das pontes, o final não foi como imaginei. E eu resolvi assistir sozinha porque você pode ser uma pessoa de reticências, mas eu sou de pontos finais.

Fica aqui mais um amor que não existiu.

Mudança de perspectiva

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Às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma mudança de perspectiva. Há dias ruins em que sinto como se eu estivesse o tempo inteiro com um filtro de negatividade me cercando e, por mais que me esforce, vejo tudo sem saturação. Opaco. Sem vida.

Por sorte, há sempre outros dias para que eu possa me apegar em algum detalhe que me traga de volta para a vida mais colorida. Há dois anos, quando resolvi comprar meu apartamento, eu imaginava muitas coisas sobre a minha casa dos sonhos. E claro que nem tudo o que eu sonhava em ter naquele momento era o que eu, de fato, tinha condições para pagar, mas como morava com os meus pais e não tinha muita pressa em sair de casa, resolvi que só compraria o apartamento quando eu sentisse aquele friozinho de certeza na barriga.

Tudo aconteceu tão mais rápido do que eu imaginava! Foi de verdade amor à primeira vista: a cozinha aberta, as varandas, a proximidade do metrô, a proximidade da casa dos meus pais, o preço (claro!) e o verde! Como eu amo ter essa vista quando acordo de manhã! Tenho sempre a sensação de que estou de férias em algum lugar mesmo que por alguns breves minutos até lembrar de todas as atividades que eu sempre tenho programadas para o dia.

A vida não tem sido muito fácil nos últimos meses e eu tenho precisado me reinventar quase todos os dias. Remodelar atitudes, repensar ações, rever finanças e reprogramar sonhos. Viver sozinha é ter sempre muitas preocupações, mas às vezes gosto de olhar para toda a minha trajetória e me sinto orgulhosa por ter conquistado praticamente todos os meus sonhos até aqui.

Eu sempre senti demais e percebi demais. Meus sentimentos são quase sempre intensos, mas acho que isso faz parte de tudo o que eu preciso ser para ser tudo o que eu quero ser.

Fiquei doente

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Fiquei doente e não tenho paciência nenhuma para lidar com o meu corpo enquanto ele se recupera. Eu detesto esse grito de socorro, de alerta para “precisamos diminuir o ritmo” quando tudo o que eu queria era justamente acelerar cada vez mais rápido.

Eu tinha vários planos para janeiro e não contava com essa passada de perna em mim mesma. Peguei uma promoção de Black Friday na escola de dança e além das aulas na turma iniciante, estou fazendo também as aulas da turma intermediária. Me programei para atualizar o blog às segundas, quartas e sextas. Me matriculei num workshop de teatro por dois finais de semana seguidos e, além disso, estava fazendo alongamentos religiosamente todas as manhãs e cozinhando minhas próprias comidas para economizar já que a grana tá curta.

Foram 16 dias de sucesso, porque no dia 17 meu corpo começou com uma dorzinha, uma tossezinha, uma febrinha… e eu muito teimosa me arrastei com dor e febre mesmo por dois dias sem querer parar tudo o que estava na minha programação. Eis então que na segunda-feira passada eu não tinha capacidade de levantar da cama. Toma antibiótico e corticoide e o antibiótico não resolve e corre para o médico e troca para um antibiótico mais forte e mais uma dose de acetilcisteína e aqui estou: dopada há 12 dias e contando os últimos 3.

Voltei para dança ontem, mas ainda me sinto cansada, mole, com tosse e lenta. Esse monte de remédio me deixa também um pouco aérea e parece que o cérebro não está 100% alerta e atento como eu gostaria que estivesse. No fundo, eu sei que deveria me respeitar e descansar, mas a verdade é que o maior sentimento agora é de frustração por ter perdido uma semana de dança e não estar conseguindo me recuperar e entrar no ritmo acelerado que eu gosto de viver.

Eu estou inchada, com mais fome que o normal e a minha auto-estima desceu todos os graus que poderia descer. Todos os dias eu me digo para ser forte, mas às vezes, a vontade é de não ser. De desistir. De pedir socorro. E tudo isso só porque eu queria provar para mim mesma tudo o que eu sou capaz.

Como é que a gente faz pra entrar no eixo e alinhar corpo e mente?

Eu não sei

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Foto: Thaís Marin

Hoje é a primeira vez nesse ano que estou com dificuldades para escrever, mas a minha proposta para mim mesma era encarar isso como um desafio e uma prática de escrita, então estou aqui sentada olhando para as teclas do computador há alguns minutos.

Não é que eu não tenha o que dizer, mas o que quer ser dito hoje não pode ser exposto. Eu não sou uma pessoa de muitos segredos, mas às vezes preciso me poupar. Então sobre o que escrever quando não se pode escrever sobre o que se quer escrever?

Pensei em algumas formas de falar sobre o assunto usando metáforas e subtextos, mas não sinto que esse seja o caminho certo. Parei algumas vezes para mexer no celular e procurar outras inspirações, mas só encontrei gatilhos.

Hoje na hora do almoço, estava assistindo a um curto documentário sobre a memória e a meditação. Era um estudo bem interessante sobre como essas duas coisas reagem no cérebro. O que mais me chamou a atenção é como as memórias de tudo o que já vivemos são exatamente a base para que consigamos imaginar o futuro. É como se pegássemos diversas imagens e tentássemos recolocá-las em outra ordem, combinar de outros jeitos, para contar uma nova história.

Será por isso que às vezes sentimos que estamos andando em círculos e ficamos sem conseguir projetar novos cenários? Será por isso que às vezes eu sinto que preciso fechar alguns ciclos e começar do zero? Com imagens novas? Personagens diferentes?

Eu não sei… Tem dias que a minha vontade é não fazer muitos esforços e só admirar a vista enquanto o cérebro fica brincando com esse quebra-cabeça de quem eu era e de quem eu serei.

Estar vivo é não saber como nos sentiremos no dia seguinte.